Este mapa é uma peça fundamental da etnologia brasileira, produzido por Curt Nimuendajú, um dos mais importantes antropólogos e indigenistas que atuaram no Brasil. Publicado postumamente em 1954, o mapa ilustra as rotas e os territórios de ocupação do povo Guarani (especificamente os subgrupos Mbyá, Ñandeva e Kaiowá) no estado de São Paulo e regiões fronteiriças.
Por.:: Renato Marchesini: Historiador com pós-graduações em História do Brasil (Contemporânea, Indígena e Afro-brasileira), História da América, Arqueologia e Patrimônio.
Aqui estão os pontos principais para entender a importância e o conteúdo deste documento:

..:: O Autor: Curt Nimuendajú
Nascido na Alemanha como Curt Unckel, ele foi “adotado” pelos Guarani Apapocuva, que lhe deram o nome Nimuendajú (“aquele que soube construir seu próprio lugar”). Sua proximidade com os indígenas permitiu que ele mapeasse não apenas localizações geográficas, mas a cosmologia e o sentido espiritual por trás das migrações.
..:: Conteúdo Geográfico
O mapa foca na bacia hidrográfica do interior paulista, destacando rios que foram (e são) vitais para a mobilidade Guarani:
- Rio Paranapanema: Um eixo central de deslocamento.
- Rio Aguapehy (hoje Rio Aguapeí ou Feijó): Frequentemente citado em seus registros.
- Rio Peixe e Rio Pardo: Regiões de ocupação histórica.
- Cidades e Vilas: É possível notar referências a Bauru, Piratininga e Santa Cruz do Rio Pardo, situando a presença indígena em áreas que hoje são densamente urbanizadas.
..:: A Natureza das Migrações
Diferente da visão colonial de que os indígenas vagavam “sem rumo”, o mapa de Nimuendajú ajuda a explicar o conceito de Yvy Marãey (a “Terra Sem Mal”):
- As migrações registradas não eram apenas busca por recursos, mas movimentos religiosos e sociais em direção ao Leste (o litoral), onde acreditavam estar a entrada para o paraíso terrestre.
- O mapa registra a localização de diversas aldeias (indicadas como “Aldea”) e acampamentos temporários ao longo dessas rotas.
..:: Contexto Histórico: O Conflito e a Expansão
Na época em que os dados foram coletados (início do século XX), os Guarani enfrentavam a pressão violenta da expansão da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) e o avanço das frentes cafeeiras.
- O mapa serve como um testemunho da resistência e da persistência desses grupos em manter seus trajetos tradicionais apesar do cerco do estado e dos colonos.
- A escala de 1:1.000.000 mostra a vastidão do território percorrido, contrastando com as pequenas reservas (terras indígenas) para as quais muitos foram posteriormente confinados.
..:: Importância Científica
Este mapa é frequentemente utilizado em processos de demarcação de terras indígenas e em estudos arqueológicos, pois comprova a ocupação tradicional e contínua dos Guarani em regiões onde, por muito tempo, a história oficial tentou apagar sua presença.
Você está estudando esse mapa para alguma pesquisa histórica específica ou por interesse na cultura Guarani?


