Bovarismo Brasileiro: Filosofia, Fenômenos Sociais e Ciência Política

Por..:: Renato Marchesini

Os autores de diferentes campos do saber apontam criticamente alguns aspectos comuns (O Bovarismo) às concepções de corpo no pensamento para uma compreensão dos fenômenos sociais. 
O bovarismo cria um mecanismo de engano que é sustentado constantemente. O indivíduo pretende não enxergar, tende a imitar, as maneiras de agir, falar e vestir do modelo idealizado. A eficácia e duração desse sistema vai depender do quão distante esse modelo idealizado está do ser bovárico. Certas experiências sociais contemporâneas, como nas sociedades ameríndias, estão voltadas para a fabricação de uma cultura e também da fabricação de pessoas.
O brasileiro é uma figura peculiar, aduzida por Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, marcada pela cordialidade e “jeitinho”, refletem a máxima bovarista que faz parte do imaginário do nacional, o qual ludibria-se como ser superior, em um mundo cada vez mais impessoal.
A carapuça serviu ao propósito de demonstrar uma capacidade inata ao nacional, a de esconder deficiências e enaltecer qualidades que sequer possui para demonstrar. O brasileiro é assim, figura cordial, trapaceira, corrupta, que confunde a casa com a rua (Roberto DaMatta), o público com o privado, estendendo a intimidade para a comunidade.
A cordialidade aqui junta-se à capacidade de ser corrupto, de usufruir do que é de todos. Um particular que endossa a ideia do “jeitinho”, no sentimento de possuir. Um sentimento bovarista, em referência a uma autoimagem deturpada da realidade.
Brasileiros pensam ser pessoas grandiosas e admiráveis, seres superiores. Não é à toa que dizem que “Deus é Brasileiro”. Um mito a ser eliminado de mentes incultas, porquanto o Brasil é um país fracassado em aspectos como: saúde, educação, política e etc.
A ilusão inculcada não é recente. Desde que o país foi colonizado e proclamado reino unido a Portugal, imagina-se, sem sucesso, contudo, que vivemos num país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza, uma colônia quase metrópole ou seria melhor que a metrópole?
O bovarismo tem o seu lado positivo e produtivo, o qual seria o de manter o ser humano evoluindo, em movimento. A imaginação do tupiniquim é a de que somos um país do futuro, de que em se plantando, tudo se colhe e vários outros conhecimentos vulgares que permeiam o imaginário do nacional.
Quais são os culpados dessa mitomania, desse bovarismo, dessa ilusão contrastante entre o querer e o poder?
Acusa-se que tais mitos tenham sido criados pelas peculiares características dos nacionais miscigenados que encontraram em terras além-mar, um ambiente propício ao apadrinhamento, à pessoalidade, em detrimento da administração pública impessoal.
Fato que aconteceu com a distribuição de títulos de nobreza a quem pudesse pagar, logo após a chegada de D. João VI ao país em 1808.
Direitos não foram conquistados no Brasil, mas sim concedidos. Reflexo do bovarismo. Pensamos que somos um país democrático e voltado para o bem comum. A Constituição também prega isso, contudo não acontece dessa forma.
O que ocorre é a confusão do patrimônio público com o privado, do espaço público com o privado, do pensamento público com o privado e por aí vai.
As questões sociais e políticas que aparecem e são herdeiras da escravidão e do autoritarismo.  Mas precisaríamos ser menos colonialista, menos provinciano, menos bovarista. Seria o bovarismo um herança/sintoma da sociedade brasileira?
Assim é o Brasil, um país com grandes perspectivas, só que bovarista.

Referências
DaMatta, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco: 1986. Disponível em: http://www.iphi.org.br/sites/filosofia_brasil/Roberto_DaMatta_-_O_Que_Faz_o_Brasil_Brasil.pdf. Acesso em 19.02.19>. Acesso em: 18 de fevereiro de 2019.
Entrevista. Bovarismo ou a mania de não ser – Roberto DaMatta – Entrevista – Canal Futura. 15 de abril de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gJQyjtEqRXA. Acesso em: 19 de fevereiro de 2019.
Nexo Jornal. ‘Bovarismo Brasileiro’: entrevista com Maria Rita Kehl. 09 de Agosto de 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JhRH-5Ug_EE. Acesso em: 20 de fevereiro de 2019.
Rafucko. Talk-Show do Rafucko: Eduardo Viveiros de Castro. 23 de Julho de 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=1535&v=c3v_DuRI1tE. Acesso em: 20 de fevereiro de 2019.

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