Constantemente as viagens internacionais a turismo e os gastos com cartões de crédito delas decorrentes são apontadas como algumas das principais causas do déficit estrutural da conta de serviços do balanço de pagamentos brasileiro.
Por..:: Braulio Oliveira e Giuliano Contento de Oliveira
De acordo com os dados disponibilizados pelo Banco Central (BC), em 2009, a conta turismo foi deficitária em quase US$ 2 bilhões e, em 2010, entre janeiro e setembro, ela foi responsável por um déficit de quase US$ 3 bilhões, valor equivalente a mais de 10% do déficit do balanço de serviços acumulado nesse período, e a 40% do déficit de toda a conta de viagens internacionais – que contempla, ainda, as viagens para fins educacionais, culturais ou esportivos; negócios; e por motivos de saúde; além dos gastos com cartões de crédito. Contudo, uma leitura pouco atenta desses dados pode levar a conclusões equivocadas, como a de que muitos brasileiros viajam exageradamente para fora do país e/ou que gastam demasiadamente em suas viagens ao exterior.
Prova disso é que, entre 2005 e 2010, a quantidade de turistas brasileiros que realizaram viagens internacionais caiu 21,92%, devendo chegar a 2,86 milhões neste ano, segundo dados do World Travel & Tourism Council (WTTC). Quanto aos gastos com cartões de crédito, os dispêndios dos turistas brasileiros atingirão estimados US$ 7,1 bilhões em 2010, enquanto as receitas mal chegarão a US$ 3,2 bilhões. Em 2009 esses valores foram de US$ 6,6 bilhões e US$ 3,2 bilhões, respectivamente, também segundo o WTTC. Entendemos, portanto, que as reais causas do referido déficit tem raízes em fatores conjunturais e estruturais de desestímulo ao turismo receptivo internacional no Brasil.
No que tange aos fatores conjunturais, destacam-se a prevalência de uma taxa de câmbio extremamente favorável ao turismo no exterior e desfavorável ao interno, bem como a elevada carga tributária. Atualmente, com uma carga tributária de quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma taxa de câmbio em torno da que tem prevalecido no período mais recente, uma viagem ao exterior pode sair praticamente de graça, com o ganho obtido com as compras de produtos fora do país em relação aos preços domésticos.
Já quanto aos fatores estruturais, pode-se destacar os conhecidos e recorrentes problemas de infraestrutura (aeroportos, rodovias, portos etc.); a violência e a baixa qualidade média da prestação de serviços aos turistas estrangeiros. Infelizmente, não são poucos os episódios de turistas estrangeiros vítimas de crimes diversos em nosso país. Ademais, muitos municípios brasileiros e muitas empresas do setor ainda fazem uso de técnicas de gestão incipientes, quando existentes.
Os efeitos positivos decorrentes das atividades turísticas são diversos e bem aproveitados por muitos países como Estados Unidos, França, Itália e Espanha. Além de gerar divisas, as atividades diretas e indiretas relacionadas ao setor estimulam os investimentos e, por extensão, a geração de empregos e desenvolvimentos de infraestrutura compatível com o crescimento sustentado da economia.
Devido aos grandes eventos que o país sediará em 2014 e 2016, está na hora de mudar o modo de agir
Em 2009 o Brasil recebeu cerca de 4,9 milhões de turistas estrangeiros, sendo que a projeção para 2010 é de que receba cerca de 5,1 milhões. No mesmo ano, a Argentina, por exemplo, recebeu cerca de 4,4 milhões, sendo que para 2010 o WTTC estima 4,6 milhões. Para a Espanha e Itália, dois dos principais destinos turísticos mundiais, são estimados 52,8 milhões e 41,5 milhões de turistas estrangeiros, respectivamente. Assim, enquanto os estrangeiros representam apenas 20% do total de turistas no Brasil, na Argentina esse número chega a 37%; na Itália passa dos 40%; e, na Espanha, supera 50%.
Quanto às receitas com o turismo, o WTTC calcula que, em 2010, foram superiores a US$ 106 bilhões na Itália (9,3% do PIB) e de quase US$ 109 bilhões na Espanha (15,3% do PIB), em comparação com pouco menos de US$ 53 bilhões no Brasil (5,8% do PIB) e de quase US$ 30 bilhões na Argentina (7,2% do PIB).
No que tange aos investimentos governamentais, por seu turno, entre 2000 e 2010 (projeção) o governo brasileiro direcionou cerca de US$ 47 bilhões ao setor, enquanto o espanhol destinou quase US$ 91 bilhões e o italiano, pouco mais de US$ 95 bilhões, muito embora esses dois países tenham um setor de turismo já consolidado e maduro.
Essas evidências revelam algumas preocupações que devem ser consideradas caso se pretenda que o turismo contribua efetivamente para o desenvolvimento social e econômico de nosso país, entre as quais se destacam:
a) países que possuem um setor de turismo desenvolvido investem muito mais do que o Brasil – afinal, dada a competição internacional prevalecente, faz-se indispensável a realização de investimentos permanentes e crescentes no setor, bem como um posicionamento de marketing estratégico e atrativo;
b) embora o volume de recursos investidos seja importante, tão relevante é o uso eficaz desses recursos.
Por esses motivos e devido aos grandes eventos que sediaremos em 2014 (Copa do Mundo) e em 2016 (Olimpíada), está mais do que na hora de pensarmos estrategicamente o turismo no Brasil, de modo a propiciar o melhor aproveitamento de seus benefícios. Isso significa, pois, admiti-lo como vetor de desenvolvimento econômico e social, condição que requer não apenas o provimento coordenado de recursos públicos e privados para o setor, mas a elaboração de planos com objetivos claros e visão de longo prazo. Enfim, um planejamento que seja capaz de considerar a criação e a manutenção de adequada infraestrutura, formação permanente de mão de obra qualificada e integração entre o poder público, as entidades representantes da sociedade civil e as empresas, de sorte a viabilizar o alcance das metas estipuladas e a constante agregação de valor às atividades relacionadas direta e indiretamente ao turismo.
Braulio Oliveira é doutor em Administração pela FEA/USP; professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da FEI e sócio da Contentos – Soluções em Negócios e Treinamento (www.contentos.com.br).
Giuliano Contento de Oliveira é professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp. giuliano@eco.unicamp.br
Fonte..:: Valor (06/01/2011) / Administradores.