Ilha da Queimada Grande – Itanhaém / SP

Porção imersa de montanha que um dia já foram unidas ao continente, como boa parte das ilhas da região sudeste do país e, entre elas, em especial, a Queimada Grande, de 78 hectares, localizada a 33 km de Itanhaém, no litoral sul paulista.

O isolamento de todo esse relevo costeiro ocorreu 11 mil anos atrás, no fim da última glaciação, quando geleiras derreteram e subiu o nível dos oceanos. Por se tratar de topos de morros rochosos, a ilha não têm praias e exibem encostas bem íngremes. O desembarque difícil funciona como uma barreira de proteção para a fauna residente ou visitante. Muitas espécies evoluíram de maneira diversa do continente até se tornarem únicas, devido a esse confinamento milenar.

Além do acesso difícil e do isolamento, na Queimada Grande, ainda há uma proteção natural extra: as serpentes. Diferentes das espécies continentais. Um bom motivo para o homem nunca ter ocupado essas terras, embora elas tenham servido – e ainda sirva – de porto de descanso ou abrigo de tempestade, desde a época das caravelas.
 É de chamar atenção a densidade de serpentes na ilha. “No continente, um pesquisador – experiente e com muita sorte – localiza 3 jararacas no mesmo dia. Pesquisei a Juréia, no litoral de São Paulo, durante 5 anos e localizei 5 jararacas. Em Queimada Grande as capturas sobem, fácil, para 50 jararacas-ilhoas numa noite”, conta Otavio Marques, do Instituto Butantan.
 Em Queimada Grande, as tartarugas marinhas atualmente estão livres do afogamento em redes e em espinhéis, o maior problema causado por atividades humanas, em alto mar. Queimada Grande está dentro de uma Área de Proteção Ambiental, a APA de Cananéia-Iguape-Peruíbe, criada em 1984, e é uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) desde 1985. A pesca comercial é proibida. A pesca amadora embarcada e a caça submarina são admitidas, mas nenhuma das duas usa redes. Ainda é permitido o tráfego de barcos de passeio. O desembarque, no entanto, é proibido, e enfaticamente desaconselhado, por causa das jararacas.
 A maioria das atividades realizadas em torno da Queimada Grande é de baixo impacto. No entanto, há sinais de estresse entre as tartarugas. E alguns peixes mais visados estão sob pressão, já considerados vulneráveis na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção. Entre eles, destacam-se as caranhas (gênero Lutjanus), os badejos (gênero Mycteroperca) e as garoupas (gênero Epinephelus).

Os impactos ambientais decorrentes das queimadas não são exclusividade do século 20, é bem verdade. Queimada Grande tem esse nome por ter sido sistematicamente incendiada, desde o tempo das caravelas. O fogo era uma forma de combater as serpentes, tidas como praga até pouco tempo atrás e não como um dos tesouros da biodiversidade brasileira (hoje assim reconhecido pela indústria farmacêutica, pois as proteínas do veneno das jararacas têm alto interesse biomédico).

Tempestades à parte, para alterar o curso dessa história de exploração predatória da natureza e traçar um futuro de conservação mais seguro para as ilha paulista, os pesquisadores e ambientalistas que trabalham em Queimada Grande defendem a criação do parques nacional marinho. Ambos seriam abertos à visitação controlada, ao turismo de observação e a programas de educação ambiental, além de dar continuidade a projetos de pesquisa.
 A campanha pelo parque da Queimada Grande foi lançada no início de 2004, com apoio da entidade ambientalista Conservação Internacional (CI). Gerou uma reação dos praticantes de caça submarina e pescadores, freqüentadores daquelas águas. Eles montaram, inclusive, algumas organizações não governamentais para brigar contra as restrições de uso da área.

“A pesca praticada em torno da Queimada Grande é esportiva e não de subsistência, portanto a criação do parque não traria problemas sociais”, defende Guilherme Dutra, da CI. “Trata-se de uma pesca seletiva, onde só os peixes maiores são capturados. Isso pode parecer sustentável, mas não é, pois os maiores exemplares, para estas espécies de peixe, são justamente os mais aptos para a reprodução”, acrescenta.

A maior preocupação é minimizar as pressões sobre os conjuntos, únicos e diferenciados, de espécies de flora e fauna de Queimada Grande, laboratórios vivos para quem quer entender a evolução e as adaptações de cada bicho aos recursos disponíveis.
 Na Queimada Grande ocorrem duas espécies de morcego e residem ou visitam a ilha mais de 30 espécies de aves. Existem pelo menos 3 anfíbios endêmicos, 3 lagartos, 2 ‘cobras-cegas’ e 2 serpentes, também exclusivas. Mas a ilha é rica mesmo em aranhas, com nada menos do que 70 espécies catalogadas

Mais do que o relevo ou o clima, o principal fator de diferenciação foi a disponibilidade de presas, conforme explica Otavio Marques, do Instituto Butantan. Não há roedores nas ilhas, nem mesmo os camundongos e ratos introduzidos acidentalmente em quase todo o mundo, ‘de carona’ nas caravelas do passado ou nas cargas de barcos de todo tipo, ainda hoje. Ao contrário das jararacas do continente, portanto, as populações ilhadas foram obrigadas a mudar de dieta. A jararaca da Queimada Grande também se alimenta de invertebrados e pequenos anfíbios, mas só enquanto jovem. A grande diferença está em sua fase adulta, quando ela apresa principalmente aves. Por isso adaptou-se à vida arborícola – coisa rara entre as jararacas – e desenvolveu um veneno de forte efeito coagulante.

“Estamos testando a eficiência dos venenos dessa jararaca e já verificamos que o da ilhoa jovem é mais ativo em invertebrados e menos em roedores. Quando ela cresce, a composição muda e o veneno se torna muito ativo em aves”, conta Fátima Furtado, também do Butantan. Os testes estão apenas iniciando, mas prometem revelar detalhes de alto interesse para as pesquisas biomédicas, porque algumas das proteínas contidas nos venenos são exclusivas e absolutamente novas para a Ciência.

Fonte..:: EPTV
Fotos..:: Otavio Marques

(papo de biologia)

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